Dor de cabeça e os analgésicos

A PERIGOSA RELAÇÃO ENTRE A DOR DE CABEÇA E OS ANALGÉSICOS

 

 

A alta prevalência das dores de cabeça colaborou para que se criasse na população o costume de consumir indiscriminadamente analgésicos. Em busca do alívio imediato da dor, as pessoas ingerem analgésicos sem prescrição ou acompanhamento médico. Usam doses progressivamente mais altas desses medicamentos e, desse modo, ao invés de eliminar a dor, contribuem para o agravamento dela e podem provocar outras complicações.  Se utilizadas freqüentemente mesmo em quantidades pequenas, separadamente ou em combinação, esses analgésicos podem perpetuar a cefaléia, tornando-se um problema crônico diário, como tem sido constatado por diversos estudos.


Muitas vezes os profissionais de saúde não  conseguem o diagnóstico correto da cefaléia por ela estar modificada pelo uso indiscriminado dos analgésicos, já que a sintomatologia modifica-se ficando mais complexa. Ela se torna uma nova condição. Muitas vezes, por falta de reconhecimento, não se consegue o tratamento adequado.

Usar analgésicos pelo menos duas vezes por semana, durante três meses seguidos, já induz a cronificação da dor. Essa nova condição chama-se Cefaléia induzida por drogas. Elas são auto-sustentadas, rítmicas e o ciclo medicação-cefaléia leva a um quadro de dor diária ou quase diária e uma irresistível necessidade do uso de medicação como único meio de obter alívio da cefaléia.

Essas cefaléias "modificadas" apresentam variabilidade na intensidade, tipo e localização. Freqüentemente, torna-se difícil distingui-las das cefaléias primárias, pelas quais as medicações foram consumidas. Os sintomas acompanhantes são bastante notáveis na cefaléia induzida por sintomáticos e incluem: astenia, náuseas, agitação, ansiedade, irritação, problemas de memória, dificuldade de concentração e em casos extremos, anomalias comportamentais, como depressão e padrão de comportamento neurótico.

Os distúrbios do sono são freqüentemente observados nos pacientes com cefaléia induzida por medicamentos sintomáticos, sendo as alterações mais comuns a dificuldade para iniciar e manter o sono e o despertar durante a madrugada com cefaléia intensa. Uma das características mais surpreendentes da cefaléia induzida por sintomáticos é a cefaléia previsível durante a madrugada (entre 2:00 e 6:00 horas), que ocorre em até 46% desses pacientes. A maioria deles consome os sintomáticos durante essas horas da madrugada, quando acordam com a cefaléia e somente a medicação em questão pode aliviar temporariamente a dor. Alguns indivíduos podem consumir as medicações antecipadamente, pelo receio de uma crise forte de cefaléia que supõem prestes a acontecer, levando ao uso desnecessário dessas medicações.

A tolerância às medicações cresce, resultando num aumento gradual da freqüência de consumo e da quantidade total analgésicos, acompanhada por dependência desses medicamentos e refratariedade tanto aos medicamentos profiláticos quanto aos próprios analgésicos. Daí a grande possibilidade de falha em qualquer tentativa de tratamento.
A falta de resposta ao tratamento é uma das principais características das cefaléias induzidas por drogas. Já foi constatado que pacientes que consumem simultaneamente medicações analgésicas e profiláticas continuam sofrendo de cefaléia diária ou quase diária, ficando assim indicado que os medicamentos profiláticos são ineficazes na prevenção das cefaléias, quando associadas ao uso continuado de analgésicos.
Em outras palavras, torna-se um vício que pode até evoluir para uma síndrome de abstinência quando não se utiliza o analgésico por um certo periodo de tempo.

O reconhecimento dessa condição, quando não informado ao médico,  depende do próprio paciente, ou de pessoas próximas. A cefaléia pode melhorar efetivamente após a interrupção dos medicamentos, embora a cefaléia primária torne necessária a manutenção de um tratamento profilático.  Reconhecer a condição e esforçar-se para suspender os analgésicos, mesmo que, por um periodo, sofra a falta deles, é de extrema importância para o sucesso do tratamento.

Todos os analgésicos são potencialmente perigosos quando usados sem indicação médica, descriminadamente e em excesso. Embora controlados, atenção especial deve ser tomado diante daqueles derivados de morfina. Devido ao seu mecanismo de ação central, aliviam a dor com mais eficiência, mas são psicotrópicos (ex:Metadona, Codeína, Tramadol) e causam depedência química com facilidade. No entanto, os analgésicos comuns, (dipirona, paracetamol, isomepeteno, cafeína) por serem de fácil acesso e encontrados em qualquer lugar além das farmácias, como em supermercados, lojas de conveniência e bancas, não precisam de receita médica e por isso podem ser considerados ainda mais perigosos. A Neosaldina, veiculada em anúncio de televisão, e usado em larga escala, oferece grande risco em cronificar e modificar as cefaléias primárias. Acaba sendo mais um problema no consultório médico.

As cefaléias induzidas por medicamentos sintomáticos representam um grande desafio pela complexidade do quadro clínico e envolve muito mais o esforço do próprio paciente do que a utilização de novos medicamentos, exames ou tratamentos caros e sofisticados. É como livrar-se de um vício! Portanto, se você costuma utilizar essas medicações de alívio - os analgésicos - com freqüência, procure um especialista para evitar que esse quadro se instale.


Dr. Antonio Sergio C.B. Guimaraes